A estreia do documentário Ronaldinho Gaúcho, na Netflix, nesta quinta-feira (16), reacende um capítulo consistente da trajetória do ex-jogador fora dos gramados: a música. Longe de ser uma aventura pontual, Ronaldinho reúne créditos como compositor, produtor, percussionista e empresário, com dezenas de obras registradas e projetos próprios em andamento, além de hits populares em diferentes gêneros.
Documentário e um personagem além do futebol
Dividido em três episódios, o documentário aborda a carreira do camisa 10 nos gramados. Paralelamente, sua atuação na música consolidou-se ao longo dos anos. Conhecido como “O Bruxo” — apelido que o consagrou no futebol e que migrou para seus projetos musicais —, Ronaldo de Assis Moreira foi campeão do mundo em 2002 e brilhou no Barcelona, contexto que o projetou globalmente e facilitou conexões com cenas musicais no Brasil e no exterior.
Catálogo como autor e intérprete
De acordo com consulta no site do Ecad, Ronaldinho aparece como compositor/autor em 91 obras e como intérprete em outras 32. Entre os destaques como autor estão Agora Perdeu, sucesso do grupo de pagode Bom Gosto, com 46 milhões de reproduções no Spotify, e Favela, interpretada pelo rapper Delacruz, com cerca de 3 milhões de plays na plataforma.
Hits como cantor e parcerias
Como cantor, Ronaldinho participou de faixas que ganharam grande alcance popular. Entre elas:
- Professor da Malandragem, parceria com Dennis e Wesley Safadão;
- Vamos Beber, com Dennis e a dupla sertaneja João Lucas & Marcelo;
- Solteiro de Novo, novamente com Wesley Safadão — esta última soma quase 200 milhões de visualizações no YouTube.
Novo passo empresarial: gravadora em Miami
Em março, o ex-jogador anunciou a gravadora Tu Música, sediada em Miami (EUA), com foco em talentos da América Latina. O primeiro projeto será um álbum em homenagem à Copa do Mundo. A iniciativa inclui um “camping” de criação no dia 6 de abril, reunindo compositores e produtores de vários países.
Raízes no samba e a percussão
Fã de samba e pagode desde a infância, quando ouvia Fundo de Quintal com o irmão Assis, Ronaldinho é reconhecido por músicos como bom percussionista, com domínio de rebolo e tantan. Imagens marcantes mostram o ex-jogador liderando a roda no pós-jogo da Copa do Mundo de 2002, com o tantan nas mãos, e batucando um tambor na final da Copa de 2018, na Rússia.
Já aposentado, ele intensificou sua presença no samba, apoiando novos talentos — caso de Ferrugem, que afirma ter recebido do “bruxo” o pagamento por sua primeira produção profissional — e participando de gravações, como o solo de surdo em Água de Chuva no Mar, no DVD do grupo mineiro Akatu.
“Se ele fosse de qualquer banda, ele seria um percussionista dos bons. Ele respeita o tempo do outro, agrega com palavras, frases, assuntos muito interessantes. Ele entendeu que a composição é mais transpiração do que inspiração e quer compor todo dia”, disse ao g1 Mug Aragão, cavaquinista do Bom Gosto.
Do rap ao trap: a Tropa do Bruxo
Durante a passagem pelo Barcelona, Ronaldinho se aproximou do rap norte-americano, tornou-se fã de artistas como 50 Cent e adotou elementos estéticos do gênero. Após pendurar as chuteiras, intensificou a conexão com o trap e o funk produzidos em Belo Horizonte, onde defendeu o Atlético Mineiro, e passou a frequentar estúdios locais. Desse movimento nasceu a Tropa do Bruxo, um coletivo voltado para funk e trap. “A tropa é um estado de espírito. É um movimento que junta talento e criatividade. O Ronaldo agrega muito e não só com o nome, porque ele entende muito de produção, de novas sonoridades”, afirma Gabriel Vieira Paula, o SMU, produtor dos principais sucessos do grupo.
O maior êxito do coletivo é Baile do Bruxo, interpretada por Triz e MC Menor Thalis, com produção de DJ WS da Igrejinha e SMU. Lançada em setembro de 2023, a faixa chegou a liderar os charts do Brasil e acumula quase 200 milhões de reproduções no Spotify. A Tropa do Bruxo opera como um laboratório criativo, conectando nomes como Djonga, MC Hariel, MC Nahara, Recayd Mob e MC Dricka. O próximo passo desejado por Ronaldinho, segundo SMU, é firmar parceria com Mano Brown, do Racionais MCs. “Antes da bola, ele é da música. É algo que vem do berço. O Ronaldo viaja pelo mundo e fica me mandando referências de sons em vários lugares. Ele disse que o sonho dele é fazer um som com o Mano Brown.”
Encerramento
A estreia do documentário na Netflix evidencia que a presença de Ronaldinho na música não é episódica. Entre registros autorais no Ecad, parcerias de sucesso como intérprete, atuação como percussionista e a criação de estruturas próprias — da Tropa do Bruxo à gravadora Tu Música —, o ex-camisa 10 soma capítulos que vão além das quatro linhas. Os próximos movimentos incluem o álbum em homenagem à Copa do Mundo e possíveis novas colaborações no universo do rap e do trap.



