Brasileira relata escalada de intimidações após ter nome exposto em documentos do Departamento de Justiça dos EUA; Reuters identifica ao menos 23 mulheres alvo de ataques semelhantes
Marina Lacerda, brasileira identificada como vítima no caso Jeffrey Epstein, passou a dormir com uma arma ao lado da cama depois de ser alvo de ameaças e perseguições desde que tornou público seu relato de abuso. As intimidações se intensificaram após a divulgação, sem sigilo, de documentos do Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DoJ) que expuseram seu nome. A situação foi detalhada em reportagem da agência Reuters publicada nesta segunda-feira (8). Lacerda afirma viver em alerta permanente e teme que alguém invada sua casa; hoje, mora com a filha de 12 anos em um condomínio fechado nos EUA.
Ameaças e exposição em documentos oficiais
Segundo a Reuters, as primeiras ameaças contra Lacerda começaram em 2023 e pioraram depois que seu nome apareceu, dezenas de vezes e sem tarjas, em arquivos oficiais do DoJ. Nas redes sociais, desconhecidos passaram a chamá-la de mentirosa e prostituta. A repercussão atingiu também sua filha, alvo de provocações na escola — colegas chegaram a perguntar se ela seria filha de Epstein.
A escalada de intimidações ganhou força após a participação de Lacerda, em setembro do ano passado, em uma coletiva de imprensa que defendia a divulgação de documentos ligados ao caso. Em comentários na internet, usuários escreveram que ela seria assassinada e que deveria ter permanecido em silêncio. Para tentar proteger a privacidade, a brasileira alterou o nome registrado em documentos imobiliários. Ela afirma não se arrepender de ter denunciado.
Rede de intimidação atinge outras vítimas
O caso de Lacerda não é isolado. A Reuters identificou ao menos 23 mulheres que relataram ter sofrido ameaças, assédio ou intimidações após denunciarem Epstein ou terem suas identidades expostas em documentos oficiais.
Entre elas está a americana Danielle Bensky, 39. Ela diz que passou a receber ameaças violentas depois que dados pessoais seus foram divulgados sem redações adequadas em arquivos do DoJ. Em uma mensagem enviada pelas redes sociais, um homem afirmou que a “estupraria até a morte”; o perfil exibia fotos dele segurando um fuzil, segundo a agência.
Outra acusadora, Maria Farmer, relatou que precisou mudar de casa após desconhecidos divulgarem seu endereço na internet. À Reuters, afirmou ter chegado a considerar o suicídio diante do assédio constante e das ameaças desde que tornou públicas as acusações contra o financista.
Ainda de acordo com a reportagem, muitas dessas mulheres passaram a adotar medidas de segurança: instalaram câmeras, contrataram proteção armada ou passaram a carregar itens de defesa pessoal, como armas, facas, tasers e spray de pimenta.
Contexto do caso Epstein
Marina Lacerda foi identificada como “Vítima Menor 1” na acusação federal de tráfico sexual apresentada contra Jeffrey Epstein em 2019. Ela afirma que tinha 14 anos quando foi abusada pelo financista, em 2002.
Epstein foi indiciado em julho de 2019 por tráfico sexual de menores entre 2002 e 2005 e morreu em uma prisão de Nova York em agosto do mesmo ano, enquanto aguardava julgamento. A morte foi oficialmente classificada como suicídio. Sua ex-companheira, Ghislaine Maxwell, foi condenada em 2021 por crimes relacionados ao aliciamento e tráfico de menores e, em 2022, sentenciada a 20 anos de prisão.
O que está em jogo
Os relatos reunidos pela Reuters indicam um padrão de ameaças e assédio contra vítimas que decidiram falar publicamente ou tiveram suas identidades expostas em documentos oficiais. O caso de Marina Lacerda, que agora dorme armada por medo de invasões, evidencia o impacto prolongado do escândalo Epstein sobre sobreviventes, anos após a morte do financista, e os desafios para garantir a proteção e a privacidade dessas mulheres.



