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Vinhos soterrados por enchentes no RS viram edição especial; agricultores celebram retomada após tragédia

Radar 830

Após enfrentarem a maior catástrofe ambiental da história do Rio Grande do Sul, em 2024, os viticultores da Serra Gaúcha vivem um momento de retomada. A safra mais recente é descrita como emblemática: a produção atingiu 905 mil toneladas — somando uvas de mesa e para a indústria —, volume acima da média, segundo a Emater-RS. O alívio, porém, vem acompanhado de lições e investimentos para enfrentar a recorrência de eventos extremos. Em um gesto simbólico, garrafas soterradas pela lama deram origem a uma edição especial de vinho, transformando perdas em mensagem de resiliência.

Da lama ao brinde: “Edição Inundação”

Uma família decidiu converter parte do prejuízo em símbolo de superação. Das garrafas soterradas durante as enchentes, 180 foram resgatadas, limpas e vendidas como a “Edição Inundação”, acompanhadas de um poema sobre a força da terra e da água. A iniciativa reforça a capacidade de adaptação do setor diante de um cenário desafiador.

Safra emblemática e alicerces da recuperação

De acordo com a Emater-RS, a colheita somou 905 mil toneladas, acima da média histórica, resultado atribuído não apenas ao clima favorável, mas à persistência dos produtores e ao aumento do investimento em tecnologia. O desempenho ajuda a reconstruir receitas e confiança após perdas consecutivas vividas por agricultores da região desde 2023.

Perdas sucessivas e resiliência no campo

Em Barão (RS), o produtor Arnaldo Argenta relata que a propriedade enfrentou transbordamentos e enchentes por três anos seguidos, entre 2023 e 2025. Em maio de 2024, toda a produção em fermentação foi perdida, e máquinas ficaram cobertas pela lama. O prejuízo acumulado no período chegou a R$ 1,5 milhão. “A gente vai levar cinco anos para voltar ao estágio em que estávamos, mas a gente tem muita resiliência e vai conseguir”, afirma.

Tecnologia como escudo contra extremos

Para reduzir riscos impostos pelas variações do tempo, ganha espaço o sistema de cultivo coberto. A técnica protege os frutos da chuva, diminui em até 90% a incidência de doenças fúngicas e permite irrigação direta no solo. O entrave é o custo elevado de implantação, que pode chegar a R$ 450 mil por hectare, exigindo planejamento e crédito compatível com a realidade das propriedades.

Pesquisa e novas variedades

A busca por uvas mais adaptadas também se intensifica. Em Santa Teresa, a família de João Paulo Berra mantém uma área experimental com 50 variedades europeias. Entre elas está a Palava, originária da República Checa, uma uva precoce que ajuda a escalonar a colheita e o processamento industrial, aliviando gargalos nos picos de safra.

Tradição que atravessa gerações

A viticultura na Serra Gaúcha remonta à chegada dos imigrantes italianos em 1875. Hoje, cerca de 15 mil famílias cultivam uva no Rio Grande do Sul, sendo que 90% da produção está concentrada na região serrana. Para produtores como João Paulo Berra, a continuidade do trabalho é questão de “sangue nas veias”: mesmo atuando na cidade, ele retorna todos os anos durante a colheita para manter viva a tradição da quinta geração.

Encerramento

A combinação de resiliência, inovação tecnológica e pesquisa permitiu ao setor vitivinícola gaúcho transformar um período de perdas em um movimento de reconstrução. Enquanto iniciativas como a “Edição Inundação” dão rosto humano à superação, a adoção de sistemas de proteção e o desenvolvimento de variedades mais adequadas ao clima apontam caminhos para reduzir vulnerabilidades e sustentar a produção nos próximos anos.

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