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Cabedelo, Paraíba: destino turístico é tomado pelo crime e vigiado 24 horas por câmeras instaladas por bandidos

Cabedelo (PB), cidade litorânea com mais de 60 mil habitantes, vive sob a influência de uma facção criminosa que, segundo investigações da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público, passou a comandar a rotina local à distância a partir do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro — a mais de 2 mil quilômetros. Mais de dez operações foram deflagradas para combater corrupção e crime organizado no município. Criminosos impõem regras, interferem na vida dos moradores e utilizam uma rede clandestina de câmeras para vigiar 24 horas as ruas e acessos da cidade.

Colapso institucional e poder paralelo

  • “A cidade de Cabedelo, infelizmente, vive um colapso institucional”, afirmou João Marcos Gomes Cruz Silva, delegado regional de Polícia Judiciária da PF na Paraíba.
  • Para o procurador-geral de Justiça do MP-PB, Leonardo Quintans, “a sociedade fica refém, perde sua liberdade e passa a ser comandada por esse poder paralelo”.

Segundo as investigações, integrantes do Comando Vermelho (CV) monitoram Cabedelo a partir do Rio de Janeiro. O Complexo do Alemão, que reúne 13 favelas na Zona Norte carioca, serve de base para o controle remoto da facção sobre a cidade paraibana.

Vigilância clandestina e intimidação

Nas ruas de Cabedelo, pichações com a sigla do Comando Vermelho e a abreviatura do nome de um dos chefes identificados pela investigação, Flávio de Lima Monteiro, o “Fatoka”, marcam presença. Câmeras clandestinas — chamadas de “besouros” — foram instaladas em postes, árvores e casas e disfarçadas, segundo a PM-PB, com fita isolante entre os fios ou dentro de canos metálicos pintados. “Neste momento, em algum lugar, algum criminoso está vendo essa movimentação nossa aqui”, relatou um profissional de imprensa ao acompanhar uma operação policial.

Quando rivais são detectados, a ordem, conforme mensagens interceptadas, é direta: “Aço nele, demorou”. Em setembro de 2024, um morador registrou que o carro da esposa foi atingido por tiros e desabafou: “A gente nunca passou por isso. Só peço, pelo amor de Deus, tem cuidado com os inocentes.” O apelo chegou a Fatoka, que respondeu por áudio justificando a ação em meio à “guerra” e ironizando a situação.

Controle social e influência política

O domínio da facção, de acordo com a apuração, extrapola a vigilância: interfere na escolha de líderes comunitários, monitora reuniões de moradores e emite “avisos” para impor regras. Há relatos de planos para uso de drones em explosões de impacto.

A infiltração, apontam PF e MP, alcançou a administração pública. Os últimos quatro prefeitos de Cabedelo são investigados:

  • Leto Viana renunciou ao cargo enquanto estava preso.
  • André Coutinho teve o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE).
  • Edvaldo Neto foi afastado 48 horas após a eleição.
  • Vitor Hugo tornou-se inelegível.

As defesas de André Coutinho, Edvaldo Neto e Vitor Hugo afirmam que eles são inocentes e negam qualquer envolvimento com o crime organizado. A defesa de Leto Viana não respondeu aos contatos.

Esquema financeiro e prejuízo aos cofres públicos

As investigações indicam loteamento de cargos, “rachadinhas” e o uso da empresa Lemon Terceirização e Serviços Ltda. para desviar recursos públicos. O prejuízo estimado à prefeitura é de R$ 270 milhões. Por meio da empresa, a facção teria infiltrado parentes e amigos na Prefeitura e na Câmara de Vereadores, além de manter funcionários fantasmas com salários revertidos para atividades ilícitas.

Ariadna Cordeiro Barbosa, apontada como gerente financeira da facção, declarou em depoimento que as contratações eram direcionadas: “Assim que você chegava lá, dizia quem era a indicação, ela botava na folha. Indicação FTK [Fatoka]. Todas as vezes [a pessoa era admitida].” Em troca, o grupo garantiria segurança a gestores em áreas conflagradas e vetaria a entrada de opositores.

Enquanto o dinheiro era desviado, equipamentos públicos — como quadras de esportes e unidades de saúde — ficaram abandonados ou subutilizados. Em um prédio público onde apenas o raio-X funciona, três vezes por semana, o vigilante é funcionário da Lemon.

A Prefeitura de Cabedelo informou, por meio do procurador municipal Leonardo Nóbrega, que o contrato com a Lemon será anulado, com modulação para não interromper serviços essenciais prestados por mais de 600 funcionários. Em nota, a Lemon afirmou empregar mais de 700 pessoas em Cabedelo, exigir certidões criminais negativas desde 2024, repudiar acusações de “folha paralela” por atingirem centenas de trabalhadores e disse colaborar com as investigações.

O personagem central e a expansão do CV

Aos 43 anos, Fatoka começou na facção Nova Okaida, na Paraíba, e fundou a Tropa do Amigão, apontada como braço do Comando Vermelho no Nordeste. Contra ele, há 13 mandados de prisão por tráfico, homicídios e organização criminosa. Preso no Presídio de Segurança Máxima da Paraíba, fugiu em setembro de 2018 em uma fuga em massa de 92 detentos que usaram explosivos. Capturado novamente, obteve medida judicial para liberdade com tornozeleira eletrônica em 2022; no mesmo dia em que o equipamento foi instalado, rompeu-o e fugiu para o Rio de Janeiro.

De acordo com o MP-PB, “ponteamento” — mapear território e eliminar rivais — sustenta a operação criminosa. Em conversas interceptadas, um comparsa reporta a Fatoka: “Cinco cabeças representando o estado da Paraíba… pra nóis ficar forte com a rapaziada.” Em uma operação no Complexo da Penha, no Rio, em outubro passado, dos 117 criminosos mortos, 62 eram de outros estados, evidenciando a circulação interestadual de facções.

Em áudios, Fatoka defende que favelas são o “canto mais seguro”, inclusive para quem usa tornozeleira, por considerá-las menos acessíveis a forças de segurança. Sua defesa afirma que não há elementos probatórios que o vinculem aos fatos narrados. Segundo a polícia, ele permanece foragido no Complexo do Alemão e monitora Cabedelo: “Vou ser bem sincero pra tu: lá nas áreas, só cai uma folha se eu disser que sim.”

Impactos à população e atuação policial

Cabedelo cresceu entre o mar e o rio e é destino turístico, mas moradores relatam ausência de serviços básicos — como coleta de lixo e pavimentação — e um silêncio que não é de paz. O medo inibe depoimentos e entrevistas. A Polícia Militar da Paraíba realiza operações para localizar e desmontar as câmeras clandestinas; segundo o tenente-coronel Luiz Antônio, equipamentos são camuflados nos postes e em canos metálicos, a serviço da vigilância do crime sobre o território.

Defesas e próximos passos

  • A defesa do ex-prefeito Vitor Hugo repudia qualquer tentativa de vinculá-lo a organizações criminosas e diz não haver provas de participação, favorecimento ou conhecimento de práticas ilícitas.
  • Os advogados do ex-prefeito Edvaldo Neto afirmam tranquilidade quanto à apuração e dizem não existir prova concreta de participação em organização criminosa ou em supostas fraudes.
  • A defesa de André Coutinho sustenta que o ex-prefeito é inocente, não tem participação nos atos investigados e que seu afastamento não se justifica.
  • Leto Viana não respondeu aos contatos.

As forças de segurança informam que as operações de repressão ao crime organizado e de saneamento da máquina pública continuam. As investigações buscam desarticular a estrutura financeira e logística da facção em Cabedelo, responsabilizar agentes públicos e privados envolvidos e restabelecer a segurança e os serviços essenciais no município.

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